Olhou para o relógio, eram 20:07.
Madalena contemplava orgulhosa a sua ceia de Natal. O perú estava no forno, quase pronto. A mesa vestida de linho, belíssima, os pratos, os talheres (comprados em Londres num impulso que ainda hoje lhe dá dores de estômago mas que o marido, por sabe-la feliz, assentiu), os copos, tudo alinhado numa simetria que faria inveja a qualquer hotel de luxo. Nos castiçais de prata, as velas acabadas de acender propagavam pela sala uma luz quente, uma aura de paz.
Contemplava, sozinha na sala. O marido ficara retido no escritório, os filhos adolescentes nas últimas compras de Natal, os sogros na estrada, vindos do Porto.
O telemóvel tocou.
- Madalena...?
Gelou por dentro. Não ouvia aquela voz há 20 anos, quase tantos como os que tinha de casada.
- Madalena...?
Agarrou-se às costas de uma cadeira, sentia o sangue fugir-lhe pelos poros da pele.
- Como conseguiste o meu número? Disse, por fim.
- Virei o mundo...
Virou o mundo no dia em que se despediram com um 'Até amanhã' e ela nunca mais o viu. Soube que tinha ido para fora, que era reconhecido pelo seu trabalho e de que falavam dele nos jornais.
Madalena casou pouco tempo depois desse 'Até amanhã'. Tinha uma vida burguesa, um marido dedicado, dois filhos, amigos e vida social.
- Que queres...? perguntou, sem ar.
- Quero que fujas comigo.
Olhou para a mesa da ceia, tudo perfeito, o perú no forno. Chorava agarrada à cadeira. Esperou 20 anos por aquelas palavras. Pensou nos filhos presos no escritório, no marido a chegar do Porto, os sogros nas últimas compras de Natal...
- Onde estás? perguntou.
- À tua porta... à tua espera.
Viu num segundo os quase 20 anos de existência naquela casa, anos em que viveu uma vida que não era a sua, era de outra. Ela tinha ficado para sempre suspensa naquele 'Até amanhã'.
Desligou o telefone, abriu a porta e saiu.
Nos castiçais de prata, as velas acabadas de acender propagavam pela sala uma luz quente, uma aura de paz.