terça-feira, 19 de maio de 2015

Que a minha loucura seja perdoada

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção

Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também

Oswaldo Montenegro - Metade

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Merece

Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino, introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo afinal não é a política mas o sono.

Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão exóticos de certas palavras.

Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou, num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes dias quando se preenche a declaração para o IRS.
(…)

Outro exemplo: democracia. Para mim, inocente alma iludida, democracia é um regime político assente na separação de poderes, com eleições livres e universais, coisas bonitas como um voto por cabeça, instituições que se vigiam entre si (aquilo que os rústicos americanos, que têm muito a aprender com a esquerda nacional sobre processos democráticos, chamam checks and balances), cidadãos com possibilidade de acederem à informação relevante sobre quem nos governa e como (o bom do escrutínio democrático), governantes dando aos governados satisfação da forma como atuaram (dos mesmos rústicos vem o nome accountability). Tudo a acompanhar uns tantos direitos, liberdades e garantias.

Mas vivi estes anos todos enganada, que democracia não é nada disso. Democracia – e espero que estejam com corretor na mão para rasurar o vosso adulterado dicionário – é o regime político que permite à esquerda (e apenas a esquerda) governar com legitimidade.

Já fazem parte do folclore nacional as palavras de Bernardino Soares sobre a democracia norte-coreana. E eu tenho idade para me lembrar de ver na televisão Álvaro Cunhal garantindo que Cuba era democrática: é que havia uma ligação meia mística entre o ditador e os cubanos que fornecia ao primeiro a vontade do povo – à qual, quem duvida?, obedecia. Uma espécie de democracia por osmose.

(…)

Portanto, senhores linguistas, façam favor de alterar a definição de democracia para o que eu escrevi uns parágrafos acima. Porque as pessoas à esquerda defendem o Bem e não podem senão ser as conhecedoras da verdadeira democracia. E até é fácil esta alteração linguística: basta trocarem entre si as definições de democracia e de estado autoritário.

In Observador - Crónica de Maria João Marques

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sonhos

Sonhei que estava num comboio e que tive de sair dele em movimento.
Sei que tinhamos um objectivo a cumprir e que algo aconteceria se não o fizesssemos, que nos cruzámos com pessoas do dia a dia (que faziamos todos dentro daquela piscina com pedras e quase sem água?!) e que havia um cão mas só aparecia às vezes.

Não sei o que faziamos naquele comboio, mas tenho a sensação de já ter sonhado - há muito tempo - que entrámos nele. Lembro-me do apeadeiro e das grades. Lembro-me de me ter enganado na carruagem. Seria o mesmo comboio?

Sei que deste saimos em andamento, à pressa porque algo não estava bem.
Ias à frente, abriste a porta e havia um outro comboio a bloquear a fuga.
Quando passou, deste-me a mão e saltámos.



En het is vrijdag, lecke!


en omdat de stemming is dit, zes minuten bang...


Quero