quarta-feira, 13 de maio de 2015

Merece

Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino, introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo afinal não é a política mas o sono.

Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão exóticos de certas palavras.

Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou, num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes dias quando se preenche a declaração para o IRS.
(…)

Outro exemplo: democracia. Para mim, inocente alma iludida, democracia é um regime político assente na separação de poderes, com eleições livres e universais, coisas bonitas como um voto por cabeça, instituições que se vigiam entre si (aquilo que os rústicos americanos, que têm muito a aprender com a esquerda nacional sobre processos democráticos, chamam checks and balances), cidadãos com possibilidade de acederem à informação relevante sobre quem nos governa e como (o bom do escrutínio democrático), governantes dando aos governados satisfação da forma como atuaram (dos mesmos rústicos vem o nome accountability). Tudo a acompanhar uns tantos direitos, liberdades e garantias.

Mas vivi estes anos todos enganada, que democracia não é nada disso. Democracia – e espero que estejam com corretor na mão para rasurar o vosso adulterado dicionário – é o regime político que permite à esquerda (e apenas a esquerda) governar com legitimidade.

Já fazem parte do folclore nacional as palavras de Bernardino Soares sobre a democracia norte-coreana. E eu tenho idade para me lembrar de ver na televisão Álvaro Cunhal garantindo que Cuba era democrática: é que havia uma ligação meia mística entre o ditador e os cubanos que fornecia ao primeiro a vontade do povo – à qual, quem duvida?, obedecia. Uma espécie de democracia por osmose.

(…)

Portanto, senhores linguistas, façam favor de alterar a definição de democracia para o que eu escrevi uns parágrafos acima. Porque as pessoas à esquerda defendem o Bem e não podem senão ser as conhecedoras da verdadeira democracia. E até é fácil esta alteração linguística: basta trocarem entre si as definições de democracia e de estado autoritário.

In Observador - Crónica de Maria João Marques