Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino,
introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo
estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao
Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo
afinal não é a política mas o sono.
Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à
esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos
políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão
exóticos de certas palavras.
Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou,
num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com
nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro
vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes
dias quando se preenche a declaração para o IRS.
(…)
Outro exemplo: democracia. Para mim, inocente alma iludida,
democracia é um regime político assente na separação de poderes, com eleições
livres e universais, coisas bonitas como um voto por cabeça, instituições que
se vigiam entre si (aquilo que os rústicos americanos, que têm muito a aprender
com a esquerda nacional sobre processos democráticos, chamam checks and
balances), cidadãos com possibilidade de acederem à informação relevante sobre quem
nos governa e como (o bom do escrutínio democrático), governantes dando aos
governados satisfação da forma como atuaram (dos mesmos rústicos vem o nome accountability).
Tudo a acompanhar uns tantos direitos, liberdades e garantias.
Mas vivi estes anos todos enganada, que democracia não é nada
disso. Democracia – e espero que estejam com corretor na mão para rasurar o
vosso adulterado dicionário – é o regime político que permite à esquerda (e
apenas a esquerda) governar com legitimidade.
Já fazem parte do folclore nacional as palavras de Bernardino
Soares sobre a democracia norte-coreana. E eu tenho idade para me lembrar de
ver na televisão Álvaro Cunhal garantindo que Cuba era democrática: é que havia
uma ligação meia mística entre o ditador e os cubanos que fornecia ao primeiro
a vontade do povo – à qual, quem duvida?, obedecia. Uma espécie de democracia
por osmose.
(…)
Portanto, senhores linguistas, façam favor de alterar a
definição de democracia para o que eu escrevi uns parágrafos acima. Porque as
pessoas à esquerda defendem o Bem e não podem senão ser as conhecedoras da
verdadeira democracia. E até é fácil esta alteração linguística: basta trocarem
entre si as definições de democracia e de estado autoritário.
In Observador - Crónica de Maria João Marques