quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A mulher que punha os pasquins

- Quem é? - perguntou o alcaide.
O guarda pôs-se em sentido.
 - A mulher que punha os pasquins.
O alcaide desatou a vociferar contra os seus subalternos. Queria saber quem prendera a mulher e por ordem de quem a tinham metido no calabouço. Os agentes deram uma explicação elaborada.
- Quando a prenderam?
Tinham-na encarcerado durante a noite de sábado.
- Pois ela sai e entra um de vocês - gritou o alcaide. - Essa mulher dormiu no calabouço e a terra apareceu esta manhã cheia de papéis.
Tão depressa como se abriu a pesada porta de ferro, uma mulher de idade madura, de ossos pronunciados e com um puxo monumental seguro por uma travessa, saiu do calabouço aos gritos.
 - Põe-te na alheta - disse-lhe o alcaide.
A mulher soltou o cabeço, sacudiu várias vezes a cabeleira longa e abundante, e desceu a escada como um tiro, gritando «puta, puta». O alcaide inclinou-se por cima do varandim e gritou com todo o poder da sua voz, para que o ouvissem não só a mulher e os seus agentes, mas também toda povoação:
 - E não continuem a foder-me com os papelinhos. 

in A hora má: o veneno da madrugada
Gabriel Garcia Marquez